Dinamizar e inovar para educar melhor
A educadora, que dirige um site voltado para a divulgação de projetos pedagógicos dinâmicos e ministra cursos de educação continuada para docentes, reconhece que existe um quadro de forte desvalorização do magistério, mas defende que a pior postura que o professor pode tomar é a de não interessar-se em proporcionar o melhor aprendizado possível ao aluno.
“É óbvio que os professores precisam ser bem remunerados e valorizados. Isso é indiscutível. Porém, não aceito discursos do tipo: “faço qualquer coisa, não sou paga para fazer melhor.” Assim, não há luta. Há comodismo”, comenta a educadora.
FOLHA DIRIGIDA - A senhora é autora do livro Projetos Pedagógicos Dinâmicos: a paixão de educar e o desafio de inovar. Gostaria que nos falasse, em linhas gerais, o que é fundamental para dinamizar um projeto pedagógico?Paty Fonte — A grande maioria das metodologias educacionais é ineficiente para ajudar o aluno a aprender e desenvolver novos talentos. Não se sabe ajudá-lo a alcançar o poder de pensar, de refletir, de criar com autonomia soluções para os problemas que enfrenta. Um projeto pedagógico surge das dúvidas e inquietações dos alunos e para dinamizá-lo é essencial atualizar fontes de informações e desenvolver novas competências em todas as áreas, trabalhando de forma interdisciplinar; desenvolver atitudes e valores para a convivência em grupo, com autonomia e cooperação; desenvolver novas habilidades para uma mesma profissão cujas atividades variam e se transformam rapidamente.
- Poderia nos apresentar alguns exemplos de estratégias simples e práticas para o professor dinamizar suas aulas, independente da disciplina em que atue?
Valorizar os interesses dos alunos assim como seus conhecimentos prévios. Buscar soluções para problemas reais oriundos da unidade escolar ou da comunidade onde estão inseridos. Trabalhar de forma inter e transdisciplinar. Desenvolver trabalhos em grupo e de pesquisa. Variar as propostas de atividades não reduzindo as aulas a explanação, cópias e livros didáticos, inserindo artes plásticas, cênicas, música e tecnologia. Ouvir as histórias de vida dos alunos sabendo suas reais necessidades. Realizar dinâmicas e vivências que permitam unir o grupo e levar crianças e jovens a refletirem através de debates onde possam argumentar e contra argumentar. Não oferecer respostas prontas, mas inquietar com perguntas.
- Hoje em dia, os educadores enfrentam vários desafios, como indisciplina em sala de aula, baixos salários, falta de infraestrutura, só para citar alguns. Adianta pensar em inovações e dinamização de projetos pedagógicos quando o professor enfrenta tantas limitações?
Sem dúvida que sim. É evidente que temos que lutar por todos os direitos, temos que garantir a melhor estrutura possível. É óbvio que os professores precisam ser bem remunerados e valorizados. Isso é indiscutível. Porém, não aceito discursos do tipo: “faço qualquer coisa, não sou paga para fazer melhor.” Assim, não há luta. Há comodismo. Tais falas e ações reforçam a desvalorização, passam a concretizar motivos de desrespeito e descrédito.
— O que é fundamental para inovar em um ambiente com tantas limitações para o professor?
Independente da metodologia, filosofia ou técnica de ensino vivemos na era da informação, do imediatismo, do consumismo, dos vícios, das famílias desestruturadas, da falta de valores, da correria, do stress. Paralelo a isso, hoje, para se conseguir um bom emprego, não basta ter cultura e conhecimento técnico. É preciso saber relacionar-se, respeitar as diferenças, argumentar na hora certa, saber ouvir e contra-argumentar, criar, inovar e sensibilizar. Da mesma forma que nós professores nos desmotivamos com poucos recursos e baixos salários os alunos se desmotivam com aulas pautadas em monólogos, cópias e decorebas. Precisamos aprender a lidar com essa nova geração, com o mundo atual e avançar. Isso implica em mudança de paradigmas, sobretudo implica em humildade. Por sermos professores não sabemos tudo, não temos receitas, não somos os donos da verdade. É preciso estar disposto a aprender tanto quanto a ensinar. É preciso a pesquisa, a observação, a reflexão. É fundamental o desejo de que a escola seja o verdadeiro espaço de aprendizagem.
- Os professores, de maneira geral, estão dispostos a buscar inovar suas práticas pedagógicas? Por que?
Percebo uma parcela de professores bem disposta, mas muitos ainda resistem. Aqueles que preferem parar no tempo, sem inovação, sem tentativa, sem ousadia, serão vencidos pelo cansaço de “dar murro em ponta de faca”. Serão tragados pelo infortúnio do passado que não retornará como um “passe de mágica.” Já os que lecionam por verdadeira vocação, aqueles que trabalham com paixão, sabem da grande influência que exercem nas novas gerações e da sua responsabilidade social. Por isso buscam constante aperfeiçoamento de sua práxis.
- Falta ao professor, às vezes, colocar-se no lugar do aluno, para buscar entender as dificuldades que ele tem e identificar a técnica mais correta?
Certamente. As dificuldades do cotidiano muitas vezes tornam os professores frios e mecanizam o processo ensino-aprendizagem. Por isso, acredito muito na formação continuada do docente como espaço para sanar dúvidas, refletir, debater, trocar experiências, aflorar sentimentos. Quando realizo este tipo trabalho faço os professores relembrarem sua infância e juventude e os resultados são bastante satisfatórios. Espera-se que o educador seja uma figura transformadora e acolhedora. Um amigo carinhoso que não impõe sua opinião, que respeita e valoriza cada história de vida.
- Em que segmento é mais difícil dinamizar as práticas educacionais: no ensino médio ou no ensino fundamental? Por que?
No ensino médio os professores encontram mais dificuldade em realizar um trabalho interdisciplinar além da preocupação excessiva em que os alunos passem no vestibular. Com isso, as aulas tornam-se mais tradicionais, fragmentadas e pautadas em decorebas.
- Muitos educadores afirmam que o currículo escolar, no Brasil, é extenso demais. Isso limita as possibilidades de o professor buscar formas inovadoras de ensinar? Por que?
Ao meu ver é exatamente ao contrário, pois ampliam-se as possibilidades de pesquisa e integração entre os conteúdos. O problema é a maneira de planejar e avaliar as aulas. Muitas vezes o professor tem receio em inovar crendo que o aluno não será capaz de aprender e acaba por não fomentar a busca pelo saber, não incentiva a reflexão, oferece respostas prontas e a sua forma de ver o mundo, engessando e massificando o ensino.
- Uma das principais inovações em relação ao ensino, nos últimos anos, é a questão da interdisciplinaridade, com a qual muitos professores ainda têm dificuldade. Por que é tão difícil ensinar de forma interdisciplinar?
Trabalhar com a interdisciplinaridade é mais difícil porque requer do professor uma gama maior de informações e de pesquisa. Ao entrelaçar os conteúdos e torná-los significativos também é preciso quebrar paradigmas, modificar a postura de detentor do conhecimento absoluto e estar disposto a aprender tanto quanto a ensinar, o que implica em humildade e ampla visão do mundo.
- O que deveria mudar na estrutura atual dos cursos de formação de professores no Brasil, de maneira geral, para que o profissional saísse do ensino superior melhor capacitado para trabalhar de forma mais inovadora em sala de aula?
Da mesma forma que defendo um ensino prático e dinâmico nas escolas acredito que deva ser assim também nas universidades. Tantos se formam repletos de teorias, porém não sabem colocá-las em prática. A teoria é vazia sem reflexão e sem prática.
- A falta de um ensino mais dinâmico e inovador é, a seu ver, uma das causas do abandono escolar? Por que?
Sim. A escola precisa fazer sentido, ser útil para a vida, ser um local prazeroso, de troca, de vivências positivas. O ensino dinâmico é aquele que atende aos interesses e necessidades dos seus alunos e inovador quando incentiva a busca constante de conhecimentos. Temos que mudar a realidade do baixo rendimento escolar, da evasão, da indisciplina e desmotivação por meio de uma prática refletida e ativa onde pensamento e ação estejam interligados.
- Por que é tão difícil para os estudantes de hoje, em especial os mais jovens, interessarem-se pelo trabalho pedagógico de estilo mais tradicional?
O mundo avança avassaladoramente. A humanidade nunca lidou com tantas informações e transformações. É inegável que os alunos do século XXI olham o mundo de outra maneira e agem de acordo com esse olhar rápido, colorido, mutável, inconstante. O ensino tradicional baseado na transmissão e acúmulo de informações - aquilo que Paulo Freire chamava de “educação bancária” — não condiz com a sociedade da informação, globalizada e multimídia.
Por Renato Deccache - renato.deccache@folhadirigida.com.br
A educadora, que dirige um site voltado para a divulgação de projetos pedagógicos dinâmicos e ministra cursos de educação continuada para docentes, reconhece que existe um quadro de forte desvalorização do magistério, mas defende que a pior postura que o professor pode tomar é a de não interessar-se em proporcionar o melhor aprendizado possível ao aluno.
“É óbvio que os professores precisam ser bem remunerados e valorizados. Isso é indiscutível. Porém, não aceito discursos do tipo: “faço qualquer coisa, não sou paga para fazer melhor.” Assim, não há luta. Há comodismo”, comenta a educadora.
FOLHA DIRIGIDA - A senhora é autora do livro Projetos Pedagógicos Dinâmicos: a paixão de educar e o desafio de inovar. Gostaria que nos falasse, em linhas gerais, o que é fundamental para dinamizar um projeto pedagógico?Paty Fonte — A grande maioria das metodologias educacionais é ineficiente para ajudar o aluno a aprender e desenvolver novos talentos. Não se sabe ajudá-lo a alcançar o poder de pensar, de refletir, de criar com autonomia soluções para os problemas que enfrenta. Um projeto pedagógico surge das dúvidas e inquietações dos alunos e para dinamizá-lo é essencial atualizar fontes de informações e desenvolver novas competências em todas as áreas, trabalhando de forma interdisciplinar; desenvolver atitudes e valores para a convivência em grupo, com autonomia e cooperação; desenvolver novas habilidades para uma mesma profissão cujas atividades variam e se transformam rapidamente.
- Poderia nos apresentar alguns exemplos de estratégias simples e práticas para o professor dinamizar suas aulas, independente da disciplina em que atue?
Valorizar os interesses dos alunos assim como seus conhecimentos prévios. Buscar soluções para problemas reais oriundos da unidade escolar ou da comunidade onde estão inseridos. Trabalhar de forma inter e transdisciplinar. Desenvolver trabalhos em grupo e de pesquisa. Variar as propostas de atividades não reduzindo as aulas a explanação, cópias e livros didáticos, inserindo artes plásticas, cênicas, música e tecnologia. Ouvir as histórias de vida dos alunos sabendo suas reais necessidades. Realizar dinâmicas e vivências que permitam unir o grupo e levar crianças e jovens a refletirem através de debates onde possam argumentar e contra argumentar. Não oferecer respostas prontas, mas inquietar com perguntas.
- Hoje em dia, os educadores enfrentam vários desafios, como indisciplina em sala de aula, baixos salários, falta de infraestrutura, só para citar alguns. Adianta pensar em inovações e dinamização de projetos pedagógicos quando o professor enfrenta tantas limitações?
Sem dúvida que sim. É evidente que temos que lutar por todos os direitos, temos que garantir a melhor estrutura possível. É óbvio que os professores precisam ser bem remunerados e valorizados. Isso é indiscutível. Porém, não aceito discursos do tipo: “faço qualquer coisa, não sou paga para fazer melhor.” Assim, não há luta. Há comodismo. Tais falas e ações reforçam a desvalorização, passam a concretizar motivos de desrespeito e descrédito.
— O que é fundamental para inovar em um ambiente com tantas limitações para o professor?
Independente da metodologia, filosofia ou técnica de ensino vivemos na era da informação, do imediatismo, do consumismo, dos vícios, das famílias desestruturadas, da falta de valores, da correria, do stress. Paralelo a isso, hoje, para se conseguir um bom emprego, não basta ter cultura e conhecimento técnico. É preciso saber relacionar-se, respeitar as diferenças, argumentar na hora certa, saber ouvir e contra-argumentar, criar, inovar e sensibilizar. Da mesma forma que nós professores nos desmotivamos com poucos recursos e baixos salários os alunos se desmotivam com aulas pautadas em monólogos, cópias e decorebas. Precisamos aprender a lidar com essa nova geração, com o mundo atual e avançar. Isso implica em mudança de paradigmas, sobretudo implica em humildade. Por sermos professores não sabemos tudo, não temos receitas, não somos os donos da verdade. É preciso estar disposto a aprender tanto quanto a ensinar. É preciso a pesquisa, a observação, a reflexão. É fundamental o desejo de que a escola seja o verdadeiro espaço de aprendizagem.
- Os professores, de maneira geral, estão dispostos a buscar inovar suas práticas pedagógicas? Por que?
Percebo uma parcela de professores bem disposta, mas muitos ainda resistem. Aqueles que preferem parar no tempo, sem inovação, sem tentativa, sem ousadia, serão vencidos pelo cansaço de “dar murro em ponta de faca”. Serão tragados pelo infortúnio do passado que não retornará como um “passe de mágica.” Já os que lecionam por verdadeira vocação, aqueles que trabalham com paixão, sabem da grande influência que exercem nas novas gerações e da sua responsabilidade social. Por isso buscam constante aperfeiçoamento de sua práxis.
- Falta ao professor, às vezes, colocar-se no lugar do aluno, para buscar entender as dificuldades que ele tem e identificar a técnica mais correta?
Certamente. As dificuldades do cotidiano muitas vezes tornam os professores frios e mecanizam o processo ensino-aprendizagem. Por isso, acredito muito na formação continuada do docente como espaço para sanar dúvidas, refletir, debater, trocar experiências, aflorar sentimentos. Quando realizo este tipo trabalho faço os professores relembrarem sua infância e juventude e os resultados são bastante satisfatórios. Espera-se que o educador seja uma figura transformadora e acolhedora. Um amigo carinhoso que não impõe sua opinião, que respeita e valoriza cada história de vida.
- Em que segmento é mais difícil dinamizar as práticas educacionais: no ensino médio ou no ensino fundamental? Por que?
No ensino médio os professores encontram mais dificuldade em realizar um trabalho interdisciplinar além da preocupação excessiva em que os alunos passem no vestibular. Com isso, as aulas tornam-se mais tradicionais, fragmentadas e pautadas em decorebas.
- Muitos educadores afirmam que o currículo escolar, no Brasil, é extenso demais. Isso limita as possibilidades de o professor buscar formas inovadoras de ensinar? Por que?
Ao meu ver é exatamente ao contrário, pois ampliam-se as possibilidades de pesquisa e integração entre os conteúdos. O problema é a maneira de planejar e avaliar as aulas. Muitas vezes o professor tem receio em inovar crendo que o aluno não será capaz de aprender e acaba por não fomentar a busca pelo saber, não incentiva a reflexão, oferece respostas prontas e a sua forma de ver o mundo, engessando e massificando o ensino.
- Uma das principais inovações em relação ao ensino, nos últimos anos, é a questão da interdisciplinaridade, com a qual muitos professores ainda têm dificuldade. Por que é tão difícil ensinar de forma interdisciplinar?
Trabalhar com a interdisciplinaridade é mais difícil porque requer do professor uma gama maior de informações e de pesquisa. Ao entrelaçar os conteúdos e torná-los significativos também é preciso quebrar paradigmas, modificar a postura de detentor do conhecimento absoluto e estar disposto a aprender tanto quanto a ensinar, o que implica em humildade e ampla visão do mundo.
- O que deveria mudar na estrutura atual dos cursos de formação de professores no Brasil, de maneira geral, para que o profissional saísse do ensino superior melhor capacitado para trabalhar de forma mais inovadora em sala de aula?
Da mesma forma que defendo um ensino prático e dinâmico nas escolas acredito que deva ser assim também nas universidades. Tantos se formam repletos de teorias, porém não sabem colocá-las em prática. A teoria é vazia sem reflexão e sem prática.
- A falta de um ensino mais dinâmico e inovador é, a seu ver, uma das causas do abandono escolar? Por que?
Sim. A escola precisa fazer sentido, ser útil para a vida, ser um local prazeroso, de troca, de vivências positivas. O ensino dinâmico é aquele que atende aos interesses e necessidades dos seus alunos e inovador quando incentiva a busca constante de conhecimentos. Temos que mudar a realidade do baixo rendimento escolar, da evasão, da indisciplina e desmotivação por meio de uma prática refletida e ativa onde pensamento e ação estejam interligados.
- Por que é tão difícil para os estudantes de hoje, em especial os mais jovens, interessarem-se pelo trabalho pedagógico de estilo mais tradicional?
O mundo avança avassaladoramente. A humanidade nunca lidou com tantas informações e transformações. É inegável que os alunos do século XXI olham o mundo de outra maneira e agem de acordo com esse olhar rápido, colorido, mutável, inconstante. O ensino tradicional baseado na transmissão e acúmulo de informações - aquilo que Paulo Freire chamava de “educação bancária” — não condiz com a sociedade da informação, globalizada e multimídia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Olá!Deixe seu comentário.
É muito importante e faz diferença!
Conte comigo!
Obrigada pela visita!